Por Lydia Rebouças

Para ser grande,
Sê inteiro.
Nada teu exagera,
ou exclui.
(PESSOA, 1981)

Introdução

Este artigo é o resultado de mais de duas décadas de trabalho dedicados à Educação e à Psicologia, exercitando uma abordagem holística e transdisciplinar. Sabemos que a imagem que cultivamos do ser humano traz conseqüências para tudo que fazemos. Quando essa imagem é reducionista, a possibilidade de reintegração da pessoa consigo mesma, com os outros e com a natureza, fica comprometida.

Educar para a inteireza é um processo que pode ser percorrido através de diferentes trilhas. Aqui irei compartilhar minha peregrinação enquanto Educadora e Terapeuta. Quando comecei a atuar como educadora, abordava as 4 funções psíquicas preconizadas por Carl G. Jung (pensamento, sentimento, sensação e intuição) e os 4 elementos da matéria de forma separada. Aos poucos fui tomando consciência de que era possível estabelecer uma costura entre ambos, experimentando a não separatividade na relação pessoa x natureza.

Assim que ocorreu a publicação do Relatório Delors (2003), minhas costuras continuaram. Naquela época compreendi que os 4 pilares de uma nova educação, propostos naquele relatório (aprender a conhecer, a fazer, a conviver e a ser) estavam associados às 4 funções psíquicas e aos 4 elementos da matéria. Daí em diante restava integrar os 4 diferentes estilos do conhecimento (ciência, artes, filosofia e tradições espirituais), conforme já era vivenciado na Universidade da Paz – UNIPAZ. Todos esses passos foram possíveis graças ao exercício dos princípios transdisciplinares da troca, abertura, comunicação e generosidade, sempre em contato com a inteligência do coração.

Vivemos um tempo que pede, com urgência, por uma Educação voltada ao desenvolvimento integral da pessoa, ao seu despertar; uma educação que se alie com o que está saudável na pessoa, como forma de resgatar sua inteireza; uma educação que possa ser vivenciada como um processo contínuo, uma educação para toda a vida.

 

A fundamental contribuição de Carl G. Jung
As Funções Psíquicas

Carl G. Jung (1875/1961), médico psiquiatra suíço, foi um dos maiores estudiosos da vida interior do ser humano. Constatou, em todos nós, a existência de quatro funções psíquicas: pensamento, sentimento, sensação e intuição. Segundo Jung (1987) “a Sensação (isto é, a percepção sensorial) nos diz que alguma coisa existe; o Pensamento mostra-nos o que é essa coisa; o Sentimento revela se ela é agradável ou não; e a Intuição dir-nos-á de onde vem e para onde vai”.

Pensamento/Sentimento e Sensação/Intuição são funções opostas e, ao mesmo tempo, complementares. Funcionam como as duas faces de nossa mão, isto é, a função que predomina é como o dorso da mão, mais exposto. A função menos utilizada é como a parte interna da mão, mais preservada. Porém, ambas as faces são de igual tamanho e importância.

Aqueles que são predominantemente Pensamento terão dificuldade para acolher a vastidão de seus Sentimentos; e vice-versa. Quando falta esse equilíbrio, vive-se de forma temerosa e incompleta. A sabedoria popular perpetua tal conhecimento ao dizer: “Quem pensa muito não casa” ou “Quem casa não pensa”.

Da mesma forma, pessoas que se identificam mais com a Sensação (o “São Tomé”, aquela parte de cada um de nós que precisa ver para crer) tenderão a negar ou ter dificuldades para vivenciar a Intuição. Assim como pessoas muito Intuitivas poderão ter dificuldade com a percepção sensorial baseada nos 5 sentidos: não vêem o que está diante de seu nariz.

As crianças integram espontaneamente todas essas funções, uma qualidade característica do exercício Transdisciplinar. Como pais, educadores e terapeutas, conhecemos bem o despertar da função Sensação, onde as crianças buscam, literalmente, experimentar o gosto tão diverso do mundo, sentir suas formas, olhar em todas as direções, se deixar deslumbrar ou aterrorizar pelos sons e cheiros…

A função Pensamento apresenta-se, em nossa infância, na sua forma mais aberta e profunda. A fase do “ – O que é?”, é marcante. A maioria de nós também consegue lembrar-se das perguntas que são formuladas e que vão nortear ou desnortear nossa vida: “- Quem sou eu? – De onde vim? – O que faço aqui? – Para onde vou?”.

O Sentimento é, desde que o bebê nasce, demonstrado sem nenhuma dificuldade. Vemos claramente o que agrada ou desagrada a uma criança. Nenhuma máscara dificulta as manifestações de amor ou de raiva. E todos esses sentimentos passam, como passa a brisa desse instante em que escrevo. A criança pode sentir muita raiva de um amigo e, passados alguns minutos, voltar a brincar com alegria. Ela acolhe seus sentimentos através das mais diferentes cores de suas manifestações (algumas inominadas).

A Intuição é uma forma de conhecer que transcende a lógica e as crenças mentais. Tudo é novo e desconhecido para as crianças, bem como para cada um de nós, quando vivenciamos essa função psíquica. “Nascer a cada momento para a eterna novidade do mundo”, como diz o poeta Pessoa, é deixar-se guiar por essa função psíquica, é intuir. Todos somos intuitivos.

O Colégio Internacional dos Terapeutas (CIT), fundado por Jean-Yves Leloup e coordenado por Roberto Crema, entende que a tarefa primordial de um Terapeuta é Cuidar. Assim, os Pais e Educadores que tem consciência de serem “cuidadores” são Terapeutas. Poderão acolher, cotidianamente, algumas questões: “- Como poderei cuidar melhor da integração das 4 funções psíquicas em mim mesmo?”; “- Como poderei, enquanto mãe, pai, educador, enfim, facilitar para que o outro integre essas funções?”.

 

OS ELEMENTOS DA MATÉRIA e as Funções Psíquicas

A modernidade é particularmente mortífera. Ela inventou toda espécie de “morte” e de “fim”: a morte de Deus, a morte do homem, o fim das ideologias, o fim da História. Mas há uma morte da qual se fala bem menos, por vergonha ou ignorância: a morte da Natureza. A meu ver, esta morte da Natureza é a origem de todos os outros conceitos mortíferos que acabamos de invocar. (NICOLESCU, 1999, p. 59)

Hoje todos nós sentimos na pele o quanto descuidamos de nossa relação com a Natureza, tratando-a como um objeto de consumo inesgotável. É cada vez mais urgente despertar a consciência de que vivemos todos compartilhando a mesma casa própria – o planeta Terra, hoje seriamente doente, em função dos descuidos de nossa espécie. Precisamos todos daquilo que Fritjof Capra (2005), físico, teórico de sistemas e fundador do Centro de Eco-Alfabetização de Berkeley- Califórnia, denominou “alfabetização ecológica”. Tal processo requer um conhecimento de como a natureza sustenta a teia da vida, para que seja possível desenvolver um profundo respeito e cuidado pela natureza viva.

O processo de destruição do planeta, que é um processo de auto-destruição da espécie humana, é iniciado com o cultivo da idéia de que somos separados da Natureza. Uma das conseqüências dessa idéia é o esquecimento que temos um corpo semelhante ao corpo do planeta. Sabemos que tudo o que existe na Natureza, do ponto de vista da matéria, é composto de quatro elementos: terra, água, fogo, ar. O espaço, denominado pelos orientais de “vazio fértil”, é o que permeia todos esses elementos.

Nossa visão fragmentada e reducionista nos leva a acreditar que a Natureza está fora de nós. Apontamos o dedo para as árvores, as estrelas, os rios e as flores procurando explicitar o que é a Natureza e nos esquecemos que, nesse ato de apontar, como já ensinava Buda, no século V a. C., três dedos estão apontados para nós mesmos.

É importante despertar a consciência somática de que existe uma não-separatividade entre cada um de nós e a Natureza.

ÁGUA / Sentimento:

Se compararmos nosso corpo com o Planeta, encontraremos os quatro elementos em proporções semelhantes. Mais de 70% da superfície do planeta é composta de água. “Terra, planeta água”. Nosso corpo é também um grande oceano.

A água é fluida, assume as mais diferentes formas, sem resistir, sem se opor. O sentimento também flui para todos os cantos de nosso corpo, além de extravasar, atingindo pessoas e coisas. Tem uma natureza líquida, e por isso que dizemos: “- Estou por aqui com você!”, o que significa que se está transbordando.

Hoje, mais que nunca, precisamos reaprender a cuidar dessa Água/Sentimento, conhecê-la, respeitar seu mistério e vastidão, despoluí-la, harmonizar-se com ela.

A Educação não nos prepara para lidar com nossos sentimentos. Todos nós sofremos, em maior ou menor grau, de um considerável, e às vezes desastroso, analfabetismo emocional. Humberto Maturana (2000, in Educação e Transdisciplinaridade) afirma que “quando você muda a emoção, você muda o cérebro”; e continua sua reflexão dizendo –“ Se um professor quer que seu aluno seja reprovado, basta criar medo. É evidente que todos sabemos disso! E sabemos também que se queremos que nossos alunos não repitam, criamos o quê? Amor”.

Como podemos criar Amor em nossa práxis de Educadores para a inteireza? Essa é uma questão que deve estar presente na elaboração de nossos cotidianos planos de aula.

TERRA / Sensação:

A pele está para nosso corpo, assim como a terra está para o planeta. O que chamamos de terra no nosso planeta é, na verdade, só uma crosta, a pele do planeta água. A generosidade desta pequena crosta pode nos ensinar muito. Os povos primitivos sempre se referiram à terra como mãe, Mãe Terra, fonte de nutrição para todos os seres vivos.

“Pôr os pés na terra” nos ajuda a estarmos mais presentes, nos lembra que também temos raízes. O contato com a terra pode reavivar nossos sentidos e despertar a vital consciência corporal: como respiro, o que sinto em meu corpo, como posso cuidar melhor desse corpo.

O afastamento desse arquétipo primordial, a Terra como Mãe, nos fragmenta, adoece e pode inviabilizar a vida no planeta.

Como ensinar as crianças e jovens a amarem a terra?

AR / Pensamento:

O ar, o sopro da vida, é o combustível que traz energia para o processo de crescimento e transformação de todos os seres vivos. O Pensamento é também o que cria e transforma.

Dizemos, com frequência, quando estamos tendo boas idéias: “ – Como estou inspirado!”. É isso mesmo, estamos deixando que a respiração flua com suave profundidade, trazendo a criação do novo. Essa qualidade de abertura, experimentada fisicamente, é essencial para a germinação do pensamento transdisciplinar.

Sabemos que através da fotossíntese, as plantas transformam gás carbônico em oxigênio. Nossos pulmões são como árvores invertidas que inspiram oxigênio e devolvem o gás carbônico à atmosfera. Essa troca demonstra que estamos ligados, mesmo que a consciência de tal fato não esteja presente.

Em um mundo onde o pânico tornou-se uma normose, isto é, uma patologia da normalidade (WEIL, LELOUP e CREMA. 2003), é fundamental reaprender a respirar. Digo reaprender porque a criança sabe. Basta olhar para o corpo de um bebê saudável e teremos a trilha. Falamos com freqüência do psicossomático, isto é, de como nossa dimensão psicológica repercute no corpo, no soma. Acontece que o inverso também é verdadeiro e aqui iremos falar do somatopsíquico, isto é, como a mudança no corpo, na respiração, irá mudar as emoções.

A respiração curta e superficial move mais o nosso peito e estimula o sistema nervoso simpático. Ao fazer isso, lançamos cortisol e adrenalina, hormônios do stress, na corrente sanguínea. Estamos prontos para lutar ou fugir. Podemos brigar exageradamente com os filhos ou na sala de aula. Podemos chegar a matar no trânsito. Por outro lado, a respiração diafragmática lenta e profunda, aquela que move a musculatura da barriga, irá estimular o sistema nervoso parassimpático, o que significa que será impossível sentir-se tenso e ansioso, pois já não será possível lançar cortisol e adrenalina no sangue. Respirando assim, poderemos lidar com absurdos e graças com mais presença. Poderemos cuidar melhor de tudo.

Assim, em meio à tudo e sempre, é vital respirarmos suave e profundamente. Antes de iniciar a aula. Durante a aula. Depois da aula…

FOGO / Intuição:

O Fogo é o elemento que mais purifica. Quando nos lavamos com a água, ela nos limpa e também se deixa turvar. O fogo permanece o que é, durante e após a queima. Ilumina e transforma. Michel Randon (2000, in Educação e Transdisciplinaridade) nos lembra que “a beleza é o sabor do fogo”.

Quando experimentamos a intuição, os “insigths”, sabemos que eles tem o mesmo poder de iluminar e transformar que o fogo. A Intuição é a bela luz que nos orienta na escuridão do desconhecido. É o que possibilita a aventura em meio ao mistério e tem a capacidade de descortinar, em um flash, nossa inteireza.

No nosso corpo, o fogo se expressa como calor e luz. Há luz e calor, fogo, dentro e fora de mim. Nos reencontrarmos enquanto Natureza poderá ser um caminho fecundo em direção a uma vida mais plena, tanto nossa quanto do Planeta. Como despertar o contato com a intuição/fogo em nós mesmos e nos outros?

 

AS QUATRO APRENDIZAGENS, os quatro elementos, as quatro funções

As distintas emoções tem efeitos diferentes sobre a inteligência. Assim, a inveja, a competição, a ambição … reduzem a inteligência; só o amor amplia a inteligência. (MATURANA, 2000)

Carl Rogers define Aprendizagem Significativa como algo muito além da simples acumulação de fatos. É uma aprendizagem que provoca modificação, quer seja no comportamento da pessoa, na orientação de sua ação futura, nas suas atitudes e na sua personalidade. É uma aprendizagem penetrante, que adentra profundamente toda a existência da pessoa.

Assim, parto do princípio de que todos nós, pais, educadores e terapeutas, podemos Aprender a Aprender de forma mais significativa, penetrante e amorosa. Esse Aprendizado tem diferentes formas de acontecer, conforme foi explicitado recentemente pela “Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI”, ligada a UNESCO e presidida pelo pesquisador Jacques Delors. O “Relatório Delors” (2003) enfatiza que, dentre as várias formas de manifestação da aprendizagem, existem quatro pilares que são essenciais para um novo tipo de educação.

A seguir, proporei uma correlação dessas aprendizagens, com as funções psíquicas e os elementos da matéria.

APRENDER A FAZER / Terra / Sensação

Nos transformamos em habitantes de um mundo descartável. Podemos adquirir tudo pronto nas enormes caixas do Consumo. Em meio a tudo isso, nossas mãos gritam, denunciam nossas contradições com enorme índice de LER (lesão do esforço repetitivo), anseiam por expressar-se de modo mais criativo.

Muitos professores não conseguem desvencilhar-se do “Tudo Pronto” e agem assim com seus alunos. Entregam às crianças, por exemplo, uma folha de papel com o estereótipo de uma flor desenhada para ser colorida. Desrespeitam o potencial criativo das crianças. Não percebem que há formas infinitas de se ver uma flor…

Nossas mãos anseiam pela auto-expressão criativa. Fazer, às vezes, “o pão nosso de cada dia”, e sentir nas mãos o milagre do crescimento da massa, é algo recompensador e emocionante. Fazer uma pipa, um carrinho de rolimã, uma boneca de palha de milho, um bolo, um quadro, uma escultura com argila ou madeira, uma tinta de pigmentos, um arranjo floral… Aprender a fazer é reencontrar a força de nossa criatividade.

Fazer. Identificar o desejo de nossas mãos pode ser curativo. Desenvolveremos virtudes como a paciência, a contemplação, a tranqüilidade e a satisfação.

Em Educação, Maria Montessori, Jean Piaget e Emilia Ferrero enfatizaram o Aprendizado através do Fazer.

APRENDER A CONHECER / Pensamento / Ar

A Educação valoriza o aspecto cognitivo. Precisamos entender que o conhecimento intelectual é mais que a incorporação da informação, é a descoberta do processo de buscar conhecer.

A criança tem enorme facilidade para absorver e compreender o novo. Porém, isso geralmente é tolhido por adultos que desenvolvem uma visão reducionista, voltada para o resultado, para a informação em si. Com isso, o processo rico e misterioso do Aprender a Conhecer pode acabar se reduzindo à memorização, ao trivial “decoreba” para passar na prova.

Citando o Relatório Delors (2003),

“Esse tipo de aprendizagem que visa não tanto a aquisição de um repertório de saberes codificados, mas antes o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento pode ser considerado, simultaneamente, como um meio e como uma finalidade da vida humana. Meio, porque se pretende que cada um aprenda a compreender o mundo que o rodeia, pelo menos na medida em que isso lhe é necessário para viver dignamente, para desenvolver as suas capacidades profissionais, para comunicar. Finalidade, porque seu fundamento é o prazer de compreender, de conhecer, de descobrir”.

Compreender o mundo do qual fazemos parte, vivenciando respeito, solidariedade e cooperação, é parte do sistema de conhecimento transdisciplinar.

Pierre Weil (1993) desenvolveu uma rica metodologia de Educação para a Paz, premiada pela Unesco, onde propõe trabalharmos com três Ecologias: Interior, Social e Ambiental. O primeiro passo é conhecer a Ecologia Interior: consciência corporal, mental, emocional e espiritual. Depois, dar passos em direção ao outro, conhecer a Ecologia Social: adquirir consciência a respeito das relações que estabeleço com os outros. E, finalmente, conhecer a Ecologia Ambiental, nosso relacionamento com a natureza. Saber-se Natureza. Reconhecer o Planeta que habitamos como um organismo vivo, “Gaia”, casa própria comum.

Ao estabelecermos pontes entre essas Ecologias, o Conhecimento refletirá a Sabedoria de nos sentirmos parte da complexa e delicada teia da vida . Poderá então haver o despertar da consciência na aquisição do conhecimento…

APRENDER A CONVIVER / Sentimento / Água

O primeiro a reconhecer a importância da Educação dos Sentimentos foi Rousseau, pai do Romantismo. As crises que vivenciamos hoje estão intimamente relacionadas à deficiência nesse aprendizado.

A maioria das pessoas tem muitas dificuldades para identificar e lidar com seus próprios sentimentos, sem reprimi-los ou se deixar cegar por eles. Assim, facilitamos a perpetuação desse processo doentio e oferecemos ao mundo pessoas fixadas em padrões infantis de comportamento, imaturas emocionalmente.

Para Aprender a Conviver, precisamos primeiro reaprender a conviver em paz conosco. A Paz é um movimento, como diz a canção “de dentro prá fora, de fora prá dentro. A toda hora, a todo momento”. Podemos acolher nossos sentimentos, assumindo a responsabilidade por eles (de novo, não apontando o dedo), buscando um caminho de maior equilíbrio.

Nossa capacidade de Amar poderá ser desenvolvida se não nos reduzirmos aos nossos medos. Leloup nos lembra que o oposto do Amor é o medo de Amar, de com-viver com o outro, com o diferente de nós. Entregar-se a grande e complexa aventura de viver a unidade na diversidade. Segundo Nicolescu (1999) um aspecto fundamental da educação transdisciplinar é desenvolver a capacidade de “reconhecer-se a si mesmo na face do outro”.

Os místicos de todos os tempos sempre afirmaram que todos nós, humanos, somos irmãos. Hoje, a Ciência, através do Projeto Genoma, confirma tal irmandade do ponto de vista genético, já que 99,9% de nossos genes são idênticos. Estamos diante de mais um mistério: somos tão iguais e ao mesmo tempo tão únicos.

Rubem Alves (1999) nos convida a exercitar a arte da “escutatória”. Falamos muito. Podemos reaprender a ouvir sem julgamento, encontrando verdadeiramente o outro. A maior parte do tempo, em nossas relações interpessoais, estamos fechados em nós mesmos, projetando no outro a nossa própria história. Com-Viver, respeitando a diversidade, buscando a unidade na diversidade, é nosso maior aprendizado hoje. Esse é o aprendizado que o “Relatório Delors” (2003) propõe que seja enfatizado no século XXI.

APRENDER A SER / Intuição / Fogo

O sagrado é aquilo que liga. Ele se une, pelo seu sentido, à origem etimológica da palavra “religião” (religare –religar), mas ele não é em si mesmo, atribuído a uma ou outra religião. (NICOLESCU, 1999, p. 126)

Em minha oficina de artesanato d’alma, onde atuo como Psicóloga clínica há 27 anos, durante muitos anos atendi crianças e jovens. Na entrevista inicial com os pais, uma das perguntas sempre dizia respeito a educação espiritual que haviam dado ao filho(a). Quase todos respondiam da mesma forma: “ – Nenhuma”!

Essas respostas me remetem a várias perguntas. Sabemos que antigamente o ensino da Religião era obrigatório e dogmático. Com o tempo, muitas Escolas retiraram essa disciplina de seus currículos, se afastando das Igrejas. Isso poderia ter sido muito saudável se as famílias não tivessem feito o mesmo. Claúdio Naranjo (1991, in Visão Holística em Psicologia e Educação), a esse respeito, coloca uma questão que também é a minha: “ – Será que o bebê não foi despejado junto com a água suja do banho?” É importante discriminar o que é a independência em relação às Igrejas, aos dogmas e a todo um sistema fechado de pensamento, e o que é o sagrado, a educação espiritual, o Aprender a Ser.

Para Nicolescu (1999) o sagrado é uma experiência que é traduzida pelo sentimento religioso daquilo que une todos os seres e coisas, reavivando no ser humano um respeito visceral por toda e qualquer alteridade. Tal experiência é a origem da atitude transreligiosa. Assim, “a transdisciplinaridade não é religiosa nem areligiosa: ela é transreligiosa”.

Em Psicologia, Carl G. Jung voltou a unificar o que, de verdade, nunca foi separado: a Ciência e a Espiritualidade. O trabalho de Rodolfo Steiner, que inspira as escolas Waldorf e Steiner, enfatiza o desenvolvimento da Intuição, da Educação que reconhece diferentes níveis de realidade. A Psicologia Transpessoal também integra esse aprendizado que inclui diferentes lógicas.

 

OS QUATRO ESTILOS DO CONHECIMENTO, as quatro Aprendizagens, os quatro elementos e as quatro Funções Psíquicas

Não é da luz do sol que carecemos. Milenarmente a grande estrela iluminou a terra e, afinal, nós pouco aprendemos a ver. O mundo necessita ser visto sob outra luz, a luz do luar, essa claridade que cai com respeito e delicadeza. Só o luar revela o lado feminino dos seres. Só a lua revela intimidade da nossa morada terrestre. Necessitamos não do nascer do sol. Carecemos do nascer da terra. (MIA COUTO, 1997)

Como supervalorizamos o razão, a Ciência passou a ser sinônimo de Conhecimento. Porém, existem várias formas de conhecimento, vários estilos que poderão ser descortinados à partir da predominância das funções psíquicas, conforme gráfico a seguir.

A Ciência tem como funções psíquicas predominantes o Pensamento e a Sensação, pois a reflexão científica busca encontrar sua comprovação através dos “experimentos científicos”.

A Filosofia tem como funções principais o Pensamento e a Intuição. O Filosófo é alguém que reflete muito a respeito do intangível, do invisível.

O artista é um ser à flor da pele que expressa toda a riqueza de seus sentimentos através dos cinco sentidos. Sua obra se expressa na pintura, na música, na dança, na escultura, entre outras.

Todas as diferentes Tradições Espirituais concordam que Deus, independente de como possa ser nomeado, é Amor. As funções mais desenvolvidas nesse estilo de conhecimento são o Sentimento e a Intuição.

O que importa é não nos isolarmos no exercício daquele estilo de conhecimento com o qual mais nos identificamos. É um convite para estabelecermos pontes entre Ciência, Arte, Filosofia e Tradições Espirituais. Se, por exemplo, eu sou um cientista, posso assumir esse meu lugar no mundo estabelecendo, nas minhas reflexões e práxis, pontes com a Filosofia, a Arte e as Tradições Espirituais. Foi isso que o conhecido físico Fritjof Capra fez ao escrever “O Tao da Física”. No título está explicita a ponte entre Ciência e Espiritualidade e, no livro, as demais funções psíquicas foram espontaneamente incluídas.

No conjunto do conhecimento, a arte e principalmente a poesia são reconhecidas como exemplos da síntese que tanto buscamos, são naturalmente transdisciplinares. A vida fica enriquecida ao integrar o exemplo do pensamento poético e da expressão artística, ou seja, quando são estabelecidas pontes entre todos os estilos de conhecimento.

 

Considerações Finais

A vivência da abordagem holística e transdisciplinar facilita o florescimento do Educador para a Inteireza mais pleno, capaz de cultivar a abertura em relação a si mesmo e ao outro, de comunicar-se com toda alteridade, com humildade e respeito.

No entanto, continua sendo necessário “vigiar e orar”, pois estamos todos viciados em utilizar uma visão fragmentada e reducionista. A cura para qualquer vício, bem sabem os toxicômanos, passa pela aplicação diária de uma nova afirmação construtiva que inicia com “só por hoje”. Esse é um tempo possível. É o “passo a mais” viável. “- Só por hoje eu me permitirei uma visão mais ampla, mais aberta. Só por hoje vivenciarei a inteligência de meu coração. Só por hoje vou estar inteira. Só por hoje…”.

Esse enraizamento cotidiano nos ajudará a atingir aquele que é, segundo Basarab Nicolescu (1999), o objetivo da transdisciplinaridade: a compreensão do mundo presente, para o qual um dos imperativos é a unidade do conhecimento.

A vivência desse processo de educação contínua poderá transformar o Educador em um facilitador holocentrado, como tão bem definiu Roberto Crema (1991, in Visão Holística em Psicologia e Educação). Algumas características do facilitador holocentrado são abertura, inclusividade, flexibilidade, espaço interior, humor, plena atenção, vocação, paciência, humildade e intuição, enquanto permanece centrado na pessoa e no mistério do Todo.

Desejo que a nossa peregrinação rotineira possa ser iluminada por uma visão ampla e amorosa e que possamos criar o que BACHELARD (2006) denominou a “pedagogia da leveza do ser”.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Rubem. O Amor que acende a Lua.Campinas-SP: Ed. Papirus, 1999
BACHELARD, G. A Poética do Devaneio.São Paulo: Martins Fontes, 2006
BRANDÃO, D. e CREMA, R. (org). Visão Holística em Psicologia e Educação.São Paulo-SP: Ed. Summus, 1991
CAPRA, Fritjof e outros. Alfabetização Ecológica.São Paulo: Cultrix, 2005
COUTO, Mia. Contos do Nascer da Terra. Lisboa-Portugal: Editorial Caminho, 1997
DELORS, Jacques. Educação, um tesouro a descobrir. Brasília-DF: Ed.Cortez/MEC/ Unesco, 2003
JUNG, Carl G., O Homem e seus símbolos. Rio de Janeiro-RJ: Ed. Nova Fronteira, 1987
LELOUP, Jean Yves. Cuidar do Ser.. Petrópolis-RJ: Ed. Vozes
MATURANA, Humberto e REZEPKA, Sima N. Formação Humana e Capacitação. Petrópolis-RJ: Ed. Vozes, 2000
NICOLESCU, Basarab (org). Educação e Transdisciplinaridade. Brasília-DF: Edições Unesco, 2000
NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999
PESSOA, Fernando.Obra Poética. Rio de Janeiro-RJ: Ed. Nova Aguilar, 1981
RANDOM, Michel. O Pensamento Transdisciplinar e o Real. São Paulo-SP: Ed.Triom, 2000
ROGERS, C. R. Tornar-se Pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 1981
WEIL, Pierre. A Arte de Viver em Paz. São Paulo-SP: Ed. Gente, 1993
WEIL, Pierre. A Mudança de Sentido e o Sentido da Mudança. Rio de Janeiro-RJ: Ed. Rosa dos Tempos, 2000.
WEIL, Pierre. A Arte de Viver a Vida. Brasília-DF: Ed. Letrativa, 2001
WEIL, Pierre. Os Mutantes. Campinas-SP: Verus Editora, 2003
WEIL, LELOUP e CREMA. Normose: a patologia da normalidade. São Paulo: Verus editora, 2003

 

Lydia Rebouças é Psicóloga clínica e Mestra em Psicologia, Educadora, cofundadora da UNIPAZ, Jardineira e Artesã
lydiareboucas@gmail.com
Brasília, primavera de 2006

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